felipe abreu, 'montanhas em nós', 2014-2016. © felipe abreu

EDITAR, EDITAR, EDITAR

instituto moreira sales, avenida paulista. 16h em um 19 de dezembro. 29 graus em são paulo. subo um degrau e observo a bela biblioteca do museu. leitores, livros, livros, e mais livros. cada vez menores conforme as escadas seguem subindo. um... dois... três pisos...

e enfim, o plateau

felipe abreu, 'arquitetura da solidão', 2010-2011. © felipe abreu

em exposição: robert frank: ‘os americanos’.

 

as fotografias em destaque discorrem sobre a jornada do beatnik pelas estradas dos eua. com uma bolsa guggenheim fellowship, o fotógrafo percorreu o país entre 1955 e 1957, e, no processo, gerou mais de 28.000 imagens. sim, frank fotografou 28.000 vezes. 

sigo pela sala, perplexo, e noto que a exposição, no entanto, possui 83 imagens.  

 

ao pensar neste espaço entre o número de fotografias feitas e o número de imagens em exposição, podemos compreender um dos porquês da potência desta série. e a ordem das fotografias segue nos guiando, passo à passo, por este país perturbado, descrito fotograma por fotograma por robert frank.

 

imagens, assim como letras, combinam-se e nos contam sobre o que vivemos. ou o que desejamos viver. e quais delas devem entrar, quais não, em que ordem adicionam ou subtraem, nos determinam o gênero, o ritmo e o tom do autor, que neste caso, seria o fotógrafo. 

entender a edição nos faz compreender a força das fotografias. em grupo. e, por entender este poder, ‘os americanos’ ecoa. frank sabe, melhor do que ninguém, a potência de cada um destes fotogramas, mas mais do que isso, o que as imagens nos contam como um conjunto.

após a aula com frank, encontro com felipe abreu, curador, fotógrafo e editor da old, no pátio do instituto moreira sales. entre um café (carioca, claro) e um biscoito, converso com o #albumaberto deste mês.

felipe me conta sobre como cria e explica sobre o processo de seu projeto de dípticos, 'duplinhas'. o fotógrafo, assim como o que vos fala, formou-se em cinema. e a forma como desenvolve as 'duplinhas', surpreende. aqui, abreu edita as imagens antes de fotografa-las. ou, dentro das próprias poses. como em filmes de um único take, onde a edição do filme ocorre dentro do próprio processo.

podemos destacar 'a arca russa' (2002) de aleksandr sokurov, como um exemplo. os cineastas de super 8mm usavam o recurso recorrentemente, e filmavam os 3 minutos e 30 segundos disponíveis no rolo em tomada única.

aqui, existe uma enorme preocupação com a pré-produção, em organizar os planos. e pensar neste processo para o still, onde você possui 36 poses, emociona. o que incluir? o que excluir? como? por que?

desde 2017 não havia processado o papo. hoje, meses depois, me reencontro com felipe abreu e com robert frank.

conforme o próprio felipe pediu, ainda no banco do pátio, entre um café e planos para fotografar em filme:

'pode me enviar a entrevista por e-mail? prefiro assim porque posso escrever com clareza o que penso'. 

e pronto, hoje ecoa em mim. o segredo está em editar.

com vocês, felipe abreu:

como começou a fotografar?

 

comecei a fotografar mais seriamente durante a faculdade. ganhei minha primeira câmera point and shoot com uns oito anos e depois, no final da adolescência, uma cybershot. sempre foi algo que me interessou, mas que se tornou um caminho importante na minha vida com uns 19, 20 anos. eu estava estudando audiovisual na universidade de são paulo e a fotografia still chamava mais minha atenção do que a fotografia de cinema. me sentia melhor criando meus projetos, trabalhando com uma equipe menor, algo mais simples do que as diárias que fazíamos para produzir os curtas na universidade. outro grande fator foi o laboratório, que ainda seguia ativo no departamento de cinema. fiquei durante dois anos fazendo visitas semanais, rebobinando filme, revelando e escaneando por lá. a fotografia ganhou um papel tão importante na minha graduação que meu trabalho de conclusão de curso foi uma vídeo-instalação e uma exposição fotográfica,composta de imagens que revelei e copiei no laboratório do departamento.

felipe abreu, 'montanhas em nós', 2014-2016. © felipe abreu

como surgiu a old? o que você acredita que alcançou e o que ainda deseja alcançar com a publicação?

 

a old também surgiu durante a minha graduação na usp. eu sentia que não havia espaço suficiente para jovens fotógrafos apresentarem seu trabalho e vi a ideia de criar uma revista como uma oportunidade de transformar essa situação. eu tinha um blog no qual comentava o trabalho de fotógrafos que admirava e de amigos e colegas de universidade e decidi formalizar essa prática e começar uma revista.os professores de fotografia da eca me ajudaram muito nesse caminho, luli, joel, musa, todos auxiliaram na formatação do projeto e nos primeiros passos da curadoria.

 

sinto que a revista cresceu bastante de 2014 para cá. temos uma direção de arte que gosto, uma curadoria com um nível cada vez mais alto e entrevistados que são referência no mundo todo. além disso, a old tem se transformado em um selo de conteúdo fotográfico. temos uma parceria com o valongo festival, no qual fazemos projeções de artistas emergentes. por lá, também já fomos responsáveis pelo blog da primeira edição do festival. como pessoa física, mas sempre ligado à old, organizei a curadoria das projeções noturnas do festival de tiradentes e a exposição 'em construção' assinada junto com o coletivo madalab na edição de 2017 e 'novos protagonismos' no valongo festival de 2018.

espero continuar com este processo de crescimento da old e também vejo uma oportunidade muito grande de internacionalização. a old só não é bilíngue por uma questão de custo. com este problema resolvido, será uma grande alegria levar a fotografia brasileira para um público cada vez mais amplo. acho que esta é a grande missão de agora.

felipe abreu, 'montanhas em nós', 2014-2016. © felipe abreu

conte-nos sobre os desafios de produzir uma publicação para a web. e mais, você planeja publicar a old em papel?

 

não sei se vejo desafios específicos ligados à ideia de uma publicação para a web no caso da old. nós fechamos a revista como se ela fosse impressa, subimos um .pdf para o nosso site e baseamos nossa divulgação nele. o grande problema deste último ano – que não atinge apenas publicações – é a conversão de público das redes sociais para nosso site. com a crise que o facebook tem passado estamos buscando novas mídias para serem o centro da nossa divulgação. estamos trabalhando com mais força no instagram, com esse novo cenário em mente. é um canal que recebe muito bem nosso conteúdo. o único problema é que, por ser majoritariamente mobile, não ajuda muito com a leitura da revista. nossos acessos vindos dessa plataforma cresceram muito nas duas últimas edições, mas ainda não acho que chegamos em um patamar ideal.

em relação à publicação impressa, mais uma vez aparece o grande inimigo de qualquer projeto independente: o dinheiro. brincadeiras à parte, só não fazemos a old impressa porque isso aumentaria nosso custo a um nível que não podemos aguentar no momento. se alguma marca tiver interesse em nos dar suporte, quem sabe? sempre tentamos editais públicos. ganhamos um, ficamos de suplente em outro. quem sabe ganhamos outro em breve e possamos fazer edições impressas?

felipe abreu, 'de todas as estátuas que encontrei, apenas uma sabia dizer eu te amo', 2016-2018. © felipe abreu

que dificuldades você encontra em são paulo e em seu dia-a-dia para produzir em película?

 

as grandes dificuldades são o custo e a falta de oferta de filme. não dá pra pagar r$ 60,00 em um kodak portra, mais r$18,00 pra revelar (não vou colocar escanear na conta porque comprei meu scanner em 2014 e sigo firme com ele, economizando nesta parte). isso faz com que você produza muito pouco. eu sempre tento comprar lotes quando algum amigo viaja para fora, mas com o dólar alto também não sai tão barato. fora esse praticamente incontornável pepino financeiro, fotografar com filme é uma imensa alegria. meu processo criativo está completamente adaptado a este tipo de fotografia. tomo tempo para fazer cada imagem, escanear, editar e sequenciar. não tenho pressa com meus projetos autorais e o ritmo do analógico me garante uma visão mais serena durante todo esse caminho.

 

felipe abreu, 'de todas as estátuas que encontrei, apenas uma sabia dizer eu te amo', 2016-2018. © felipe abreu

e por que a película? conte-nos sobre o processo, que inicia na universidade e evolui até hoje.

 

continuando com a resposta da pergunta anterior, só tenho um projeto feito com digital até hoje: são’, que lancei como zine em 2014. fora ele, tudo com filme. eu gosto do tempo da fotografia analógica, como já mencionei, e não tenho um tesão por fotografar em imensas quantidades. sou bastante econômico e consciente com as minhas imagens. em meus projetos que foram feitos com médio formato, por exemplo, pra fechar um livro com 40-60 imagens eu parti de um universo de no máximo 50 filmes, feitos ao longo de dois anos. essa proporção, no digital, seria impossível. eu inevitavelmente começaria de um volume imenso de imagens, o que me dá um certo pânico. fora essa questão mais prática, a textura e a nitidez do filme me interessam muito. com médio formato não preciso nem falar, né? pude trazer para o meu processo uma atenção muito especial a detalhes naturais e urbanos graças à nitidez que a hasselblad me garantia. mesmo agora, que fotografo com uma olympus sp, a lente me traz uma textura muito precisa, que não consigo com câmeras digitais. mesmo que conseguisse, sempre sinto que um digital muito nítido fica com cara de hdr (high definition range).

sobre as transformações no meu processo, há uma evolução na linguagem, no entendimento da função da fotografia dentro da minha criação artística. isto não está ligado necessariamente à fotografia ser ou não analógica. tenho explorado bastante a fotografia de arquivo e a apropriação, além da minha criação com filme. entendo, cada vez mais, que a realização da imagem fotográfica não é necessariamente o centro de um projeto, mas uma de várias etapas importantes dentro dele. em relação à minha produção fotográfica, alterno entre o 'tosco' e o preciso. comecei com p&b ferrado na revelação, escaneado em um scanner ‘não ideal’, com sujeira e ruído, passando para a lentidão e precisão da hasselblad e agora encontrando um meio termo, que une o leve e 'tosco' da olympus trip com a qualidade da olympus sp.

 


felipe abreu, 'montanhas em nós', 2014-2016. © felipe abreu

explique-nos o passo-a-passo em sua série de dípticos. como ocorre a concepção e a edição das imagens neste projeto?

minhas ‘duplinhas’, como chamo carinhosamente os dípticos que tenho postado no instagram nos últimos dois anos, começaram por uma necessidade: tinha uma série de filmes 35mm em casa e nenhuma câmera para usá-los. busquei a câmera mais barata possível e me deparei com a olympus trip, que tem seu fetiche e um certo ódio embutido por aqueles que não veem sua verdadeira beleza. antes que alguém que esteja lendo esta entrevista se ofenda, eu estou fazendo uma piada escrita, o que nem sempre funciona. risos. voltando à narrativa... comecei a fotografar com ela e produzia imagens bastante simples, mas que colocadas lado a lado produziam relações muito interessantes. é um princípio que é muito discutido por editores como gerry badger, tate shaw e jason fulford, que são grandes referências para mim. segui experimentando e complexificando este processo entre 2016 e 2018. agora estou um pouco cansado delas porque não consigo criar uma narrativa mais complexa se já parto de duplas. elas acabam não conversando entre si. fica algo como uma sequência de boas duplas, sem criar uma narrativa maior, que é algo essencial dentro dos meus projetos. parte do acervo das 'duplinhas' aliado ao material que venho produzindo nos últimos seis meses está sendo trabalhado em de todas as estátuas que encontrei apenas uma sabia dizer eu te amo’, que já teve recortes apresentados em curitiba, na espanha e em portugal. ando bem focado neste trabalho, que deve virar livro no ano que vem.  

 

felipe abreu, 'de todas as estátuas que encontrei, apenas uma sabia dizer eu te amo', 2016-2018. © felipe abreu

quando você descobriu o desejo de editar imagens? o processo se desenvolveu com a revista?

 

a edição é minha grande obsessão e ferramenta no momento. entendo que – especialmente em uma perspectiva ligada ao fotolivro – não existe um projeto fotográfico sem uma boa edição. tenho pesquisado bastante sobre técnicas na área e dedico uma parte considerável do meu tempo a fazer estudos de caso com livros que entendo que são referências na área. este processo começou a se desenvolver entre 2015 e 2016, quando passei por uma temporada de estudos em barcelona. produzir constantemente e editar junto com o grupo de colegas e professores acendeu uma fagulha que não apagou mais.

 

felipe abreu, 'de todas as estátuas que encontrei, apenas uma sabia dizer eu te amo', 2016-2018. © felipe abreu

a old tem um papel nisso, sim. edito os trabalhos que chegam sem uma sequência pré-determinada, mas sempre respeito a sequência proposta pelos autores, até porque sei a importância disso na criação de um projeto. a old me ajuda bastante na análise de trabalhos fotográficos, em encontrar qualidades na hora de selecionar os projetos pra revista. este aprendizado está bastante conectado com a curadoria, que é algo que tem me interessado muito nos últimos anos.

fui professor de um time incrível de artistas nos últimos dois anos. entre meus cursos em campinas e são paulo, tive a alegria de ver meus alunos recebendo prêmios nacionais e crescerem em reconhecimento na cena. desse pool de gente maravilhosa, saíram os livros ‘noites desperdiçadas’, que editei junto com o vitor casemiro, e ‘rolo’, que edito junto com o gui galembeck e que será lançado no ano que vem.

 

cite 3 fotógrafos que mudaram a sua visão e a sua vida.

 

só três fica difícil, né? mas vou fazer um esforço aqui. vou roubar no jogo e mencionar três homens e três mulheres, ok? assim não fica enviesado: sofia borges, laia abril, rinko kawauchi, jason fulford, gregory halpern e andré penteado.

 

e o mestrado? quem e o que você pesquisa?

 

bicho, a entrevista já tá enorme e se eu começar a falar do mestrado vai virar uma tese (outra piada sem graça. tô vendo uma tendência aparecendo! risos.) resumidamente, eu pesquiso o sequenciamento/edição dentro do processo criativo de seis artistas que ganharam o photobook awards, principal prêmio na área, organizado pela aperture e pela paris photo. no caso, são: rosangela rennó, oliver sieber, thomas mailaender, óscar monzón, nicoló degiorgis e daniel mayrit. foi um aprendizado incrível, dois anos super intensos. pra não perder o pique, já emendei em um doutorado, também sobre fotolivros, mas com foco nas noções de realidade e ficção na fotografia.

felipe abreu, 'arquitetura da solidão', 2010-2011. © felipe abreu

e por último, mas não menos importante, quais os planos com a fotografia daqui para frente?

 

o foco principal agora é dar vazão para os projetos que estão terminados, ou quase terminados, mas ainda não foram publicados. no caso, ‘folie à deux’ e ‘de todas as estátuas...’. isso deve acontecer de maneira bem tranquila à partir do ano que vem. fora isso, continuar os estudos no doutorado, continuar com minhas atividades como professor, curador e editor e, se sobrar um tempo, inventar um projeto novo para gastar meus filmes.

felipe abreu, 'montanhas em nós', 2014-2016. © felipe abreu

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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