renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

ENTRE O PESSOAL E O PROFISSIONAL

em um domingo enevoado, renato galvão me guiou em um tour pelo seu acervo. o encontro, como de costume, foi curto. mas ao menos pude conhecer o que o fotógrafo havia produzido em cuba. carros, cores desbotadas e sonhos que secam sob o sol constituem o tom deste filme em fotografias. e, assim, fomos observando foto por foto, imagens inéditas, pensando o que poderia ser composto com a coletânea. conversamos sobre câmeras, carreira, cinema, planos, projetos, viagens e sobre a vida, claro. e, o produto deste papo, você pode ver aqui, em nossa #rede. entre havana e são paulo, em um passeio do pessoal ao profissional.

com vocês, renato galvão.

conte-nos sobre como você começou a fotografar.

 

acho que começou em cuiabá, na adolescência. não me lembro ao certo. lembro que tudo que eu fazia era andar de skate e me meter em confusões. no meio disso, eu tinha uma câmera que minha mãe havia comprado mas não me deixava usar. de pouco em pouco ela entendeu que aquilo me fazia bem de alguma forma.

 

na época do dólar à $1,60 tive uma oportunidade de viajar para nova iorque para estudar cinema. lá, me encontrei como fotógrafo. durante o curso eu estava mais interessado em saber sobre as técnicas e possibilidades da câmera. também gostava das aulas de roteiro mas me imaginava contando histórias através de 24 frames por segundo. entendi que havia um curso apenas para isso, que se chamava cinematografia. o curso estava muito além do que eu podia pagar e decidi que mesmo sem estar estudando, eu ia tentar a vida naquela cidade, ia me oferecer em projetos estudantis, projetos sem dinheiro, projetos por puro aprendizado. durou 4 meses até eu precisar de dinheiro para me manter, então comecei a trabalhar como garçom, entregador de pizza e deixei a fotografia de lado, mais uma vez.

 

de volta ao brasil, um ano depois, me vi perdido e sem saber muito o que fazer, a missão de ter que conseguir dinheiro me fazia pensar em tudo menos em fotografia. foi quando consegui um trabalho de assistência de câmera na record, em são paulo. fiquei um ano focado em fazer dinheiro pra comprar a minha câmera.

 

com a câmera em mãos, fui para o rio de janeiro, me joguei nas ruas e voltei a andar de skate. fui acolhido pelo meu amigo de infância, cherry rocha e pela cena do skate através dele. hoje eu digo que o skate me deu o empurrão que eu precisava para me assumir fotógrafo, então eu considero que eu comecei a fotografar ali.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

a sua fotografia possui um clima cinematográfico. imagens que poderiam ser o frame de um filme,sabe? ao vê-las, me vem um feel de que algo está prestes a ocorrer. um beijo,um disparo. para mim, está claro como suas práticas como diretor o desenvolveram como fotógrafo. mas explique-nos um pouco mais sobre como ocorreu este processo: filmar, de fato, o desenvolveu como fotógrafo? 

 

com certeza. ser diretor me desenvolveu como fotógrafo.

 

apesar de trabalhar com publicidade, acho que essa linguagem vem um pouco da minha frustração de não ter seguido como de diretor de cinema. acho importante, para nós, como comunicadores, termos sempre algo para contar. mas, nem sempre isso acontece na fotografia still. às vezes, precisamos parar para conseguir perceber. observar, esperar ou apenas clicar. às vezes, você simplesmente sente, enxerga, ouve uma história e quer um pedaço dela. um registro. eu chamo isso de pequenos ensaios de uma narrativa que eu desconheço. com isso em mente eu gosto de pensar que minhas fotos são frames de uma narrativa maior, são ensaios de algo que está aberto a interpretação. algo em que você só tem um frame para interpretar a história que você quiser. e vice-versa, vejo muito das nuances do dia-a-dia nos meus trabalhos como diretor. eu me movo através do visual, e a fotografia é uma parte muito importante do meu processo criativo.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

 

além do cinema, sabemos que você busca viajar o quanto pode. como fotógrafo, compreendo que lugares e línguas diferentes nos ajudem a refrescar os olhos. ainda mais quando atuamos em uma área como a comercial. 

o que a viagem a cuba, por exemplo, modificou em sua concepção de fotografia?

acho que viajar é uma obrigação pra quem quer trabalhar com instinto e expressão artística. digo isso porque visitar uma cidade à 1 hora de onde você está já é sair de sua zona de conforto, de onde seu olhar já está viciado e onde mora o seu loop criativo. toda vez que eu viajo,descubro uma nova linha de possibilidades que eu posso fazer através da fotografia por meses. até que, em algum momento, esse sentimento transcende a foto e me leva a outras saídas. foi em cuba que eu entendi que muitos dos meus vícios não se aplicavam ali. no primeiro dia eu saí com três câmeras, 10 rolos na pochete e cheio de vontade de clicar. acabei me frustrando pois era um outro universo e eu precisava me deixar absorver. no segundo dia, então saí apenas com a contax t2 e fiz uns dos passeios mais interessantes de todas as minhas viagens. poucos cliques e muitas histórias. a partir dali comecei a sair só com uma câmera debaixo do braço e entender que a história, o ambiente, faz a foto. e que não adiantava eu tentar forçar nenhuma estética naquilo, eu precisava absorver e organizar meus raciocínios para que tirasse dali um material que eu nunca mais me esqueceria.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

cite os 10 filmes que mais o marcaram, até aqui.

1.   interstellar: mexeu comigo em lugares que eu nunca tinha sentido, não sei se foi porque eu tomei um doce e fui assistir no cinema, sinto que fiz parte da vida de cooper e tudo ali fazia muito sentido pra mim.

 

2.   bacurau: não preciso explicar aqui, né? cinema nacional no topo da qualidade.

3.    estômago: meu filme brasileiro favorito, com o joão miguel & babu santana. esse filme sinto que eu assistiria mais do que as 40 vezes que já vi mas não sei onde encontrar. tenho uma gravação da vez que foi ao ar na tv a cabo. assistam, de verdade. filme que conta a história de um nordestino que veio trabalhar em são paulo, acabou virando um excelente cozinheiro de coxinhas mas que terminou na prisão. o filme conta a história dele dentro e fora da prisão, é sensacional.

4.    climax: gosto de filmes que me sugam pra dentro e me fazem esquecer que eu fui assistir por conta do diretor ou dos reviews. sinto que climax mexeu com todas minhas emoções e angústias. a maneira como mergulhamos na história é muito genuína, e, quando vemos, estamos completamente dentro daquilo.

5.    a pele que habito: tinha lido o livro da tarântula, de thierry jounquet a um tempo atrás e quando vi o filme com o olhar do almodóvar consegui finalmente aceitar a história e dar mais imaginação ao que eu tinha lido. spoiler: no livro, elx foge com o cara que o fez prisioneiro.

6.    a identidade bourne: eu sei, eu sei. que loucura, certo? eu li o livro na minha adolescência e sempre achava que algo estava errado comigo, será que eu não sabia de toda minha história, porque eu não tinha memórias da minha infância? ver o filme se desenvolver em 2002 me deixava excitado e agitado, e eu gostava disso.

7.    in the mood for love: sabe quando você começa estudar fotografia e entende que a história pode ser contada em fotos? pois bem, in the mood for love é um filme que você poderia assistir no mudo e entender toda história e como o drama também está na maneira de enxergar.

8.    ocean’s eleven: aqui está um estilo de filme que eu adoraria fazer, leve & intenso na mesma proporção, com aquele tom irônico e regado de possibilidades. gosto muito do antigo de 1960 mas o atual é uma delícia de se assistir.

9.    get out: gosto de filmes que me deixam confuso, que me fazem pensar, que me fazem querer entender ele na minha mente mesmo que eu esteja completamente errado. assim foi com get out. nunca imaginei vendo um filme de terror/suspense como esse.

10.  jojo rabbit: eu sou muito viciado em quadrinhos, acho que algumas pessoas sabem disso, e o diretor desse filme, que dirigiu o último filme do thor, trouxe uma história que eu fico me perguntando como conseguiu fazer o pitch. a história é sobre uma criança na alemanha nazista que tem como amigo imaginário o próprio hitler. é uma comédia gostosa de se ver mas intensa pela sua natureza.

11.  taking woodstock: esse é filme que eu gostaria de ter feito. sinto que a trilha sonora do danny elfman fez o filme ser fluído e completamente agradável. é sobre essa família que tinha uma pousada perto de onde aconteceu o woodstock e como eles ajudaram o festival tomar a proporção que tomou, é muito legal. 

12.  parasita: tentei fugir dos clássicos, tentei dizer nomes de filmes que assistiria a qualquer hora (porque eu tenho mania de assistir filmes de novo) e não podia esquecer de parasita. filme que mais me surpreendeu no ano passado. se você ainda não assistiu, vá assistir.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

explique-nos sobre a obvious agency. como funciona? e como a agência começou?

a obvious surgiu no rio de janeiro com a marcela ceribelli que não se sentia representada pela publicidade, achava que ela não adicionava nenhuma felicidade em relação às mulheres e decidiu criar uma plataforma que contasse verdade e tivesse como objetivo a felicidade feminina. larguei meu emprego na época para poder apostar nessa nova idéia. como não tínhamos clientes no começo, produzimos de nós pra nós, fazendo os conteúdos que gostaríamos de assistir. com isso, caminhamos por um tempo como produtora, recebendo briefing e executando idéias, que muitas vezes queriam a identidade que havíamos criado para nós. até que, um dia, surgiu a oportunidade de fazer o planejamento e criação que fazíamos para nós mesmos, para clientes. com isso experimentamos ser agência de algumas das marcas da p&g como always e pampers. assim, desenvolvemos nossa estrutura para entender que éramos sim, uma agência de publicidade. nosso trabalho cresceu entre o mercado até conseguirmos contas grandes com mary kay. não só isso, entendemos também que tínhamos criado uma comunidade que tem sede de conteúdo, tendo cliente ou não. então, assumimos nosso lado como mídia própria, passamos a entender a própria obvious como um cliente nosso e isso nos deu clareza para entender nossas três frentes: produtora audiovisual, agência de publicidade e mídia de conteúdos digitais. hoje, temos clientes fixos e trabalhamos com algumas marcas do mercado de maneira pontual.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

em 2017, você optou por atuar em são paulo, em frente ao rio de janeiro, por exemplo. o que o auxiliou neste processo e quais as dificuldades que você encontrou em desenvolver a sua agência em um espaço ainda mais desafiador?

 

acho que eu e marcela tivemos muita sorte. começamos algo no rio que sentíamos que precisava de mais estrutura, sabe? mais mercado. acabamos tendo a oportunidade de ter um trabalho constante em são paulo e decidimos que não valia ficar no bate e volta. hoje acho que foi a melhor escolha que fiz, sinto que me fez crescer, criar consistência no meu trabalho e ampliar meus horizontes. acho que a maior dificuldade é o que acontece sempre, você precisa ser desafiado em todos os âmbitos do seu ambiente profissional, e em são paulo tiveram muitos desses que nos fizeram criar casca. hoje atuo menos como fotógrafo e mais como diretor de criação dentro da obvious. a minha fotografia se dividiu entre comercial e pessoal. e eu entendi que a comercial vem por demanda e requer um briefing, o qual eu adoro fazer. enquanto a pessoal depende só de mim e eu não necessariamente preciso comercializar, eu preciso botar pra fora e aí sim, entender o que fazer. faz sentido?

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão


dê dicas para quem deseja fazer da fotografia a sua fonte, e de como destacar-se neste mercado.

dica 01 : você vai ter que cumprir briefing e nem todas as vezes você vai gostar dele. ainda assim, é seu trabalho visualizar aquilo de uma forma que você atenda o seu cliente. você pode sim colocar o seu toque mas pense que é um material para outra pessoa. respeite isso e se tornará um excelente profissional.

 

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

dica 02: já que para pagar contas você precisa cumprir briefing, não se esqueça de produzir para você, de colocar você no seu dia-a-dia. seu melhor trabalho vem de dentro de você. então se cuide, tenha tempo para produzir suas coisas e para cuidar de você.

 

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

dica 03: quem bebe de informação transpira argumento. você precisa estar constantemente estudando, lendo, vendo filme, experimentando, desenhando, pintando, tocando um instrumento, ocupando a sua cabeça com coisas que podem te desenvolver, trabalhar seu cérebro e te dar insights que você não teria de cabeça vazia. inspiração não vem do nada, dom não existe e ninguém vai aparecer do nada e falar: “nossa, que idéia genial, tome todo meu dinheiro”. talento, dom e sucesso vem de consistência e trabalho duro.

 

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

e para o futuro? mais filmes? alguma ficção, projeto pessoal? mais fotografias? quais os planos?

 

espero crescer cada vez mais como pessoa para poder me compreender melhor como profissional e entender até onde posso ir. tenho alguns caminhos traçados, alguns em processo, mas a busca sempre continua, né? quero dar um tempo na fotografia para poder absorver todos os 1400 rolos que eu já cliquei até hoje, quero entender o que fazer com eles além de publicar no instagram. já tenho aquela sensação de já ter visto aquilo tudo, sabe? preciso colocar pra respirar e trabalhar esse material. vou continuar a estar presente e ver a obvious continuar inspirando mulheres do mundo todo com o trabalho que marcela vem fazendo, temos projetos sensacionais para soltar ainda esse ano, se o covid-19 permitir. tenho estudado bastante ilustração e piano, acho que em algum momento quero desenvolver mais esses skills em mim. e gostaria muito de fazer um remake do filme de meu avô, natalício tenório cavalcanti de albuquerque, o homem da capa preta.

renato galvão, sem título, havana, 2019. © renato galvão

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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