bruno mello, sem título, marfa, 2016. © bruno mello

IMAGEM

imagem: seja fixa ou seja em fluxo: bruno mello, 31, vive de imagem. graduado em comunicação social pela puc-rio, diretor de passageiro (2011), terra incógnita (2015) e fotógrafo still, o carioca nos conta sobre os prêmios, os processos e os percalços em dirigir e fotografar no rio de janeiro.

 

conte-nos sobre o dia em que decidiu que seria cineasta. como descobriu o amor pela sétima arte?

 

acho que não teve um dia específico, foi um processo longo. lembro que o meu contato mais profundo com o cinema se deu quando assisti ao 2001: uma odisséia no espaço, do stanley kubrick, aos 10, 11 anos, por entusiasmo do meu irmão. não entendi muitas das coisas que via, mas foram imagens que me marcaram para sempre. pode parecer um tanto clichê falar desse filme hoje, mas nunca foi para mim – criei uma verdadeira obsessão com ele, e meus amigos de escola não entendiam isso, risos. a partir daí, fui buscando mais coisas, clássicas e obscuras, além de populares também claro. agora a ideia de trabalhar com cinema, mesmo, só foi surgir mais tarde, no ensino médio. era preciso escolher algum caminho, e as coisas foram acontecendo. só fui ter contato com o cinema profissional na faculdade, e o que antes parecia muito, muito distante foi aos poucos chegando ao meu alcance.

bruno mello, fisherman's wharf, são francisco, 2015. © bruno mello

que dificuldades você encontra como um diretor, e ainda mais, de curta-metragens no rio de janeiro e no brasil, em geral?

 

essa é uma pergunta de muitas respostas. pode-se falar aqui de política, de processo criativo, de mercado. legal você tocar no ponto do curta-metragem, que é algo que me interessa muito. considero ele como um formato muito potente, e pouquíssimo valorizado. claro, existem milhares de festivais que abraçam o formato, e a maioria dos diretores de longa passam invariavelmente pelo curta. o meu último, terra incógnita, passou por um processo de crowdfunding e muitos amigos vinham me perguntar – “mais um curta? por quê não tentar logo o longa?”. bom, poderia dizer que não estava preparado ainda para dirigir um longa, ou que o orçamento que eu propunha não era compatível. mas o fato é que eu via aquela história como um recorte, um fragmento, e não havia formato melhor que o curta-metragem. o curta te dá uma série de liberdades mas há sim muitas dificuldades, principalmente com o filme já pronto. passado o circuito de festivais, o interesse por ele diminui muito. acho que isso hoje tem melhorado com a internet e o desenvolvimento dos vods (plataformas de vídeo on demand e streaming), onde curtas tem circulado mais.

bruno mello, terra incógnita, rio de janeiro, 2014. © bruno mello

por falar em direção, percebo que existe um processo mais e mais comum aos diretores do país: um, dois ou três curtas-metragens, editais, prêmios, e então um longa-metragem, como podemos notar em kléber mendonça filho, ou em gabriel mascaro. você concorda? percebe um processo parecido no rio de janeiro? e você… algum média ou longa na cartola?

 

como disse um pouco na pergunta anterior, o curta é muitas vezes visto como um cartão de visita, algo que o diretor possa mostrar para despertar interesse no seu trabalho e assim conseguir meios para fazer um longa. isso acontece no brasil, no rio, e no mundo. no meu caso, apesar de, sim, estar desenvolvendo um projeto de longa nesse momento, eu não pretendo deixar de fazer curtas no futuro. engraçado que é uma ideia que nasceu como curta quando eu ainda estava na faculdade. deixei de lado ela na época, fui realizar outros curtas, a ideia foi crescendo, transformada radicalmente e hoje enxergo o potencial dela como longa.

bruno mello, wild horses, mendes, 2015. © bruno mello

e a fotografia, como surgiu para você? como começou a fotografar still?

 

ao contrário do cinema, o meu interesse pela imagem parada só foi surgir tarde. o que é curioso pois meus pais, jornalistas, sempre gostaram de fotografar e a presença de uma câmera slr 35mm era bem comum na minha infância. apesar de eventualmente fotografar coisas como viagens, só fui ter uma aproximação mais profunda com a linguagem na faculdade, influenciado também pela direção de fotografia nos filmes que assistia. comecei então a fazer still em alguns curtas de amigos e me aprofundei de verdade quando embarquei no analógico. ainda trabalho muito como still e faço isso com enorme prazer, pois é a forma que encontrei de sempre frequentar sets de filmagem quando não estou envolvido com meus projetos próprios. sim, muita gente detesta o set, mas eu adoro! (risos).

bruno mello, luz de inverno, rio de janeiro, 2010. © bruno mello

sei de seu amor pela película, mas nunca o perguntei o por que... 35mm, polaroides… por quê? (risos!).

 

olha, tudo que é analógico eu tendo a gostar. seja em fotografia, projeção de cinema, vinis, sintetizadores (não sei tocar mas sou apaixonado pelo som, meu projeto de longa é sobre isso, inclusive). rodamos o passageiro (meu curta de 2011) em digital mas fiz questão de exibi-lo em um cópia em película. além do fato de na época ter tido acesso a um processo de fazer cópias bastante viável, era ainda um momento de transição para a projeção digital onde se encontravam muitos problemas de exibição, principalmente no brasil. isso está melhor hoje, sem dúvida, mas ainda tenho um real apreço pela projeção em 35mm. 

no caso da fotografia, tem o lance da textura específica, dos diferentes tipos de filme, revelações e resultados obtidos, que me encanta demais. valorizo muito esse conceito de slow photography e aquela sensação de correr para o laboratório buscar um filme revelado; se surpreender (ou não) com suas próprias fotos… é realmente única e motivadora. na polaróide, esse tempo de espera é radicalmente diminuído (o que ajuda a minha ansiedade) e ganha-se muito na imprevisibilidade e nas imperfeições inerentes do processo analógico.

bruno mello, navio fantasma, polinésia francesa, 2015. © bruno mello

cite 3 fotógrafos que mudaram a sua visão e a sua vida.

pergunta forte!

 

vou tentar falar de alguns nomes que me influenciaram – e ainda influenciam – acompanhando o meu desenvolvimento como cineasta, e também como fotógrafo.

 

acho que seria impossível para mim não citar o ryan mcginley. não preciso desenvolver muito as razões que fazem dele um verdadeiro artista, dotado de um olhar sem igual. uma de minhas influências mais fortes no terra incógnita (2015), comecei a materializar a história de laila (personagem interpretada por giselle batista) a partir de uma visita à sua exposição grids (2012) na team gallery de nova iorque. essa parte do processo é uma das coisas que mais me dá prazer em um novo projeto cinematográfico - a busca de referências das mais diversas, não só filmes, mas histórias em quadrinhos, fotografias, canções.

 

durante muitos anos, uma das minha principais fontes de descoberta de fotógrafos foi o flickr. e por lá, uma das que eu acompanho há mais tempo é a tamara lichtenstein. assim como o mcginley, o que me atrai no trabalho dela é a suposta espontaneidade e intimidade que ela atinge em suas composições. interessante que, apesar de eu vir do cinema de ficção, eu não tenho muita afinidade com fotos posadas, muito dirigidas. já tive alguma experiência com fotos de estúdio mas logo percebi que aquilo não era muito a minha praia.

 

e, recentemente, você me apresentou ao otto stupakoff, que eu não conhecia! ok, já conhecia algumas das suas fotos mais famosas, como a do tom jobim, a do jack nicholson, etc. mas não sabia quem as tinha tirado. e logo em seguida fui à exposição com a restrospectiva dele no instituto moreira salles e eu pude me debruçar mais nessa figura incrível. gosto do incrível rigor que ele fotografava as pessoas, seja no estúdio ou em situações mais espontâneas. seja em projetos comerciais ou autorais.

bruno mello, colours, bocaina, 2016. © bruno mello

explique-nos sobre como a fotografia fixa o ajuda a compreender a imagem em movimento.

no início, ela mudou radicalmente a minha forma de compor um quadro. acho que isso é inevitável. me fez ser muito mais decisivo e firme ao escolher uma entre as infinitas possibilidades de se enquadrar uma cena. me fez também pensar certos ângulos e composições que talvez eu não estivesse tão atento antes. é claro que dirigir um filme vai muito além disso, tem muitas outras questões envolvidas: movimentos de câmera, atuações, o tom da cena, etc. e eu sempre fui muito indeciso em tudo que faço, não sei como consigo fazer filmes, risos, mas acho que estou melhorando. tenho certeza que o contínuo exercício da fotografia still tem me ajudado nisso e em muitos outros aspectos.

 

 bruno mello, the stars our destination / variação, rio de janeiro, 2010. © bruno mello 

e por último, mas não menos importante, quais os planos como fotógrafo daqui para frente?

 

o trabalho como still é constante, e como disse mais cedo, me empolga muito. então se eu continuar com tempo para ele, não vou parar. já a minhas fotos pessoais, analógicas, tem fases. eu não sou daqueles que está sempre com a câmera na mão pronto para qualquer coisa. no ano passado fiquei muitos meses sem revelar um filme e sou muito grato a vocês, d’o album, por reativar meu interesse de uma forma incrível no workshop. ainda tenho muitos filmes vencidos na geladeira e se nenhum laboratório do rio fechar, pode ter a certeza que vou continuar tirando fotos, no meu ritmo próprio. volta e meia me vem uma vontade de fazer uma exposição, pode ser um bom plano para pensar pros próximos meses.

 bruno mello, fade into you, rio de janeiro, 2014. © bruno mello 

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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