sofia leão, duas em uma, búzios, 2016. © sofia leão

JUVENÍLIA #01 - RIO DE JANEIRO

JUVENÍLIA:

substantivo feminino

ju·ve·ní·li·a

(latim juvenília, plural neutro de juvenilis, -e, juvenil)

1. conjunto de obras compostas durante a juventude.

mateus augusto rubim, festa pagã, rio de janeiro, 2017. © mateus augusto rubim

de acordo com a ilford, em 2015, 30% dos fotógrafos em filme encontravam-se entre os 18 e 30 anos. dentre estes, 60% opta pela película há mais de 10. hoje, em 2018, e ainda mais no brasil, percebemos os ecos deste boom.

devido o sucesso da fotografia em filme entre fotógrafos de 18 à 25 anos, decidimos inaugurar a seção #juvenília. aqui, propomos um espaço para divulgar e dialogar sobre os desafios dos millenials na fotografia em filme no brasil.

no primeiro post, optamos por fotógrafas e fotógrafos do estado do rio de janeiro.

com vocês, a juvenília:

bruna sussekind

(rio de janeiro, 1995) / @bssusk

‍bruna sussekind, fogo frio, rio de janeiro, 2017. © bruna sussekind

pra mim, é bem difícil comprar filmes pelo 'preço original' deles, e conto nos dedos de uma mão os lugares que vendem os filmes que eu gosto mais, por isso acabo comprando a maioria online. o custo da fotografia analógica aqui no rio é bem caro, num geral. a compra da câmera, do filme, a revelação, a digitalização, a ampliação… é dificil ver tantos laboratórios de outros lugares fazendo trabalhos incríveis e não achar nada parecido aqui. e bem, infelizmente existem pessoas que ainda enxergam a fotografia analógica de uma forma muito quadrada, como se fosse apenas algo antigo. não enxergam além disso. as pessoas e as marcas daqui querem tudo pra ontem (óbvio que existem excessões).

‍bruna sussekind, nada, rio de janeiro, 2015. © bruna sussekind

eu pesquiso muitas coisas sobre moda, arte, música, cinema, feminismo, cultura jovem e design, e tudo isso com certeza afeta meus projetos e a minha forma de ver as coisas. ultimamente tenho pesquisado muito sobre psicanálise, sobre o corpo humano, sobre identidade, sensações… gosto de tentar entender como cada um se relaciona com objetos, como cada um se relaciona com a paisagem. como as coisas se relacionam num geral. a sutileza dessas relações, sabe? acho que estou mais focada nisso, em entender e estudar essas trocas com o mundo, com si mesmo, com coisas ordinárias do dia a dia. e isso acaba se relacionando também com ansiedade e como ela altera a percepção sobre si mesmo e sobre as coisas - estou com um projeto que é só sobre ansiedade e alguns sintomas ligados à ela.  

‍bruna sussekind, re-birth, rio de janeiro, 2017. © bruna sussekind

não estou com grandes planos, acho que meu objetivo principal nesse ano é produzir, criar e estudar muito. mas, eu pretendo fazer uma zine que já construí em minha cabeça faz tempo (e se der, mais de uma), porque sou apaixonada por impressos... a idéia de construir uma narrativa visual impressa me anima demais. também quero expandir pra médio formato e quero começar a escanear meus negativos, montar um lab em casa, talvez… e claro, quero ter mais trocas com pessoas, fazer mais retratos e projetos de moda. 

christian proença

(rio de janeiro, 1993) / @ccchrstn

christian proença, sem título, rio de janeiro, 2017. © christian proença

o contato com o filme surgiu em minha infância quando meu pai fazia freelas como fotógrafo para um jornal nos anos 90. eu já o via colocando e tirando filme, levando pra revelar... adorava estar sempre por ali, vendo o processo. lembro que ficava no escritório por horas desenhando e olhando as fotos tiradas. a curiosidade já estava aparecendo naquela época. muitos anos depois, por ironia do destino, comprei uma olympus trip na feira da praça xv pra 'brincar' e não parei desde então.

christian proença, sem título, rio de janeiro, 2017. © christian proença

eu sempre gostei de desenhar pessoas e observa-las de perto. acho que no final das contas meu trabalho acabou sendo uma extensão desse meu outro lado. um tempo depois comecei a pesquisar sobre os fotógrafos lambe-lambe, que me inspiraram bastante.

‍christian proença, sem título, rio de janeiro, 2017. © christian proença

para o futuro, gostaria de colocar mais projetos pra frente... sozinho e com outros fotógrafos. tem muita coisa boa por vir!

iris pimentel

(macaé, 1996) / @irispimentel

‍iris pimentel, sem título, chapada dos veadeiros, 2017

mesmo não atuando de forma profissional, me vejo com muitas dificuldades de sustentar a prática da fotografia em filme. economicamente tem muitas barreiras, pela dificuldade de deslocamento para revelar filmes, já que minha cidade não tem nenhum tipo de material nem serviço relacionado. outro incômodo muito presente está em apresentar a fotografia analógica com valorização dos seus processos num tempo tão acelerado e descartável.

iris pimentel, sem título, chapada dos veadeiros, 2017

minhas fotografias se baseiam no fluxo de afetos que me atravessam. vão de caminhadas pelo meu bairro e estudos filosóficos, a fotografos que me convocam a uma viagem de sensações. me sinto movida a externalizar as derivas da qual tento colocar meu corpo e subjetividade. minhas pesquisas têm o intuito especialmente de estreitar o visceral não-visível do visível, e meus projetos de afirmar minha existência com aumento de potência. no fim, tudo passa por uma investigação do entre si no mundo e desemboca na experimentação e no processo criativo da fotografia analógica.

‍iris pimentel, olhar côncavo, chapada dos veadeiros, 2017.

pra não ficar devaneando pelos meus longos e fortes desejos, meus principais planos são praticar mais a experimentação na fotografia, lançar um projeto de autorretrato ainda sem nome, poder expandir minha fotografia para além das redes sociais e proporcionar experiências mais densas e latentes de contato da arte com as pessoas.

luisa mascarenhas

(rio de janeiro, 1995) / @luisamasca

‍luisa mascarenhas, sem título, rio de janeiro, 2017. © luisa mascarenhas

muitas vezes eu sinto que as pessoas subjulgam o nosso trabalho, não valorizam toda nossa dedicação, tempo, estudo, particularidades, etc e não querem pagar mesmo. além disso, o filme costuma deixar as pessoas muito nervosas, como se corressem o risco de não receberem suas fotos caso o filme queime, de não poderem ver como as fotos estão ficando durante o trabalho, de ficarem com a sensação de ter gastado mal seu dinheiro porque vão receber uma quantidade menor de fotos do que se fosse em digital, de demorar muito na entrega - sendo que, pra mim, na maioria das vezes a entrega do analógico é mais rápida que a do digital -, assim como de ter que pagar mais pelo valor do material e da revelação.

‍luisa mascarenhas, sem título, rio de janeiro, 2017. © luisa mascarenhas

eu gosto muito de pessoas. sou estudante de psicologia e sempre tive muito interesse pelos nossos porquês, nosso comportamento, formas de ser e estar, movimentos, olhares, andares... assim como objetos significativos, situações, lugares especiais. gosto muito de estudar e registrar tudo isso, tentar entender o que meu trabalho causa/pode causar nas pessoas. o que faz sentir. como uma fotografia - tanto na hora em que está sendo feita quanto no momento posterior em que está sendo observada - faz alguém sentir. acho que, afinal, sou toda sobre sentimentos.

‍luisa mascarenhas, sem título, rio de janeiro, 2017. © luisa mascarenhas

meus planos daqui pra frente se baseiam em ter cada vez mais coragem e movimento para fotografar o que eu quero, pensar em projetos cada vez mais meus, viver emergida nessa arte. me unir com mais pessoas para criar coisas juntos, viajar pra fotografar, revelar em casa, scannear, editar, ampliar, brincar com minhas possibilidades. assim como seguir fotografando em moda - área que gosto muito, tanto pelo fato de poder fotografar pessoas, como pela possibilidade de fazer direção de arte, criar ensaios em cima de conceitos, coisa que gosto muito mesmo.

marcus philippe

(macaé, 1992) / @marcusxphilippe

marcus philippe, sem título, rio de janeiro, 2017. © marcus philippe

pode não parecer tanto mas sou de 1992, então cheguei a ver bastante filme queimando nas festas de família quando era novinho. o (re)surgimento aconteceu no final de 2015 quando uma amiga apareceu com uma praktica mtl3 perguntando como ela funcionava. expliquei, com a noção mínima de passar/rebobinar filme que tinha, mas ela não curtiu muito de cara, achou muito complicado. foi nessa que eu peguei a câmera emprestada, arrumei um colorplus 200 e fui. quando voltei, com as fotos já reveladas, eu era outro. foi amor à primeira (ou se preferir, segunda) vista!

‍marcus philippe, flores, rio de janeiro, 2017. © marcus philippe

eu moro em macaé, cidade do interior do rj, então tenho mais propriedade pra falar sobre as dificuldades daqui. pra começar,  até pouco tempo não existia nada relacionado à fotografia analógica na cidade. nenhum lab em funcionamento, nenhuma lojinha com filmes 35mm à venda… nada! na falta de filmes, só indo no rio ou comprando pela internet. até que eu e íris comecei a comprar filmes fora pra revender aqui e, pra nossa surpresa, a procura tem sido grande, principalmente entre os jovens. a falta de um laboratório de revelação ainda é, sem dúvida, um problema a se resolver pra que a fotografia analógica possa crescer na região. apesar disso, um primeiro passo já foi dado e, com isso, bastante gente já está queimando filme por aqui também. seguimos!

‍marcus philippe, conflitos, rio das ostras, 2017. © marcus philippe

nas próximas semanas, vou começar a tirar alguns projetos do papel, colocando em prática coisas que venho estudando e refletindo há um tempo, na intenção de criar uma relação mais real e menos virtual entre meus trabalhos e a sociedade. pretendo também estar mais presente no rio esse ano pra aproveitar as exposições, eventos relacionados a fotografia e arte em geral que estão sempre rolando na cidade, além de começar a desenvolver trabalhos pra me firmar como fotógrafo, não só de forma artística, mas profissional também.

marcus sabah

(rio de janeiro, 1993) / @msabah

marcus sabah, sem título, rio de janeiro, 2017. © marcus sabah

além da dificuldade comum a todos - a carência de filmes e laboratórios - sinto que alguns trabalhos estão cada vez mais corridos, sem deixar muita margem para que o trabalho seja prazeroso ou agradável para os envolvidos. os prazos são cada vez menores e os conceitos um pouco menos relevantes. sinto alguns trabalhos sendo realizados para preencher uma lacuna temporal, para que seja gerado conteúdo todo dia. entendo que essa demanda por conteúdo 24/7 é alimentada pelo público, e que muitas vezes não corresponder essas demandas pode dificultar muito a situação de uma marca ou fotógrafo. acredito que ambas as partes se sentem sufocadas em meio a tudo isso. 

um dos aspectos que me encanta no analógico é a fluidez e riqueza do processo. é um pouco menos sobre velocidade e quantidade, pelo menos por enquanto. não que fotografar em filme não seja correria e sangue no olho, mas pra mim é uma relação mais equilibrada.

‍marcus sabah, sem título, rio de janeiro, 2017. © marcus sabah

atualmente tenho tido muito interesse nos temas da juventude masculina, das castrações e inibições de aspectos afetivos básicos, além dos signos incorporados durante esse período de socialização. outro tema que costuma me fazer fritar um pouco está relacionado a criação de cenas com uma dose sutil de irrealidade, ou apenas uma ruptura da função ou forma de algum objeto.

marcus sabah, erogenesis, rio de janeiro, 2017. © marcus sabah

em 2018 meu plano é concluir algumas pesquisas e experimentações para dar início à construção de uma primeira série autoral, pensada e planejada para acontecer da forma imagino há algum tempo. além disso, quero continuar tendo a fotografia de moda como foco dos meus projetos e trabalhos, mas ter a oportunidade de participar de todo tipo de experiência (fotográfica ou não) que me movimente a questionar minha produção imagética. é entender cada vez mais o porque eu to fazendo aquela foto, entender cada vez mais aspectos que me cativam visualmente e como esses elementos se relacionam comigo. isso tudo em um futuro breve!

mateus augusto rubim

(rio de janeiro, 1998) / @mateusamlr

mateus augusto rubim, feel, rio de janeiro, 2017. © mateus augusto rubim

quando eu era uma criança chata e enxerida, minha mãe decidiu me dar de presente uma yashica (era a mg-3, que por acaso uso até hoje) porque eu ficava brincando com uma slr da canon que ela tinha e ela não queria que eu quebrasse a queridinha dela. por volta de 2011, com a onda da lomography, comecei a me interessar de fato por fotografia analógica e comprei algumas câmeras... sempre deixando o analógico em segundo plano, tanto que comecei a levar a fotografia como trabalho aos poucos e era sempre com digital... mas, como um bom filho à casa torna, mergulhei fundo na analógica em 2017 e abandonei todos os resquícios não-analógicos na minha vida fotográfica. 

‍mateus augusto rubim, rua assumpção, rio de janeiro, 2017. © mateus augusto rubim

a maior dificuldade, sem dúvidas, é me auto-afirmar enquanto fotógrafo em filme e ser reconhecido como tal. as pessoas sempre acham que é um hobbie, quando aparece cliente é sempre deixando de dar valor ao suor do trabalho, aos investimentos... sempre pede pra fazer foto em digital, além dos perrengues em encontrar filme, ainda mais no rio...

‍mateus augusto rubim, sem título, rio de janeiro, 2017. © mateus augusto rubim

quero sempre me aprimorar, aprender mais e mais, levar minhas experiências e possibilidades artísticas onde a fotografia analógica não chega. quem sabe abrir um lab de revelação na ilha do governador, bairro onde moro e onde a galera produz pra cacete e é super carente dessas coisas. conhecer mais gente que tá produzindo por aí, discutir mais, conquistar mais espaços, somar cada vez mais com meus amigos fotógrafos... fazer mais amizades meio a esse clima tão maravilhoso e semear ainda mais o amor pelo analógico com essas pessoas todas que constroem esse meio artístico de criação, produção, troca e afirmação em meio à essa crise artística e sobretudo social que nosso país tá vivendo. 

sofia leão

(rio de janeiro, 1998) / @sofleao

sofia leão, sem título, rio de janeiro, 2017. © sofia leão

para mim, um dos maiores problemas com a fotografia analógica é a escassez de laboratórios de qualidade na cidade. aliás, como tudo no rio, o custo dos filmes e dos processos de revelação/digitalização é muito alto. espero que o 'renascimento' que a fotografia analógica tem vivido nos últimos anos melhore esse quadro no brasil progressivamente. mas, por enquanto, o jeito é garimpar filmes em sites estrangeiros, onde o custo-benefício, no geral, é melhor.

sofia leão, donas e seus maridos, rio de janeiro, 2017. © sofia leão

atualmente o meu trabalho tem circulado entre a fotografia de rua e o fotojornalismo. gosto de contar histórias com as minhas imagens. por isso, procuro desenvolver projetos documentais de longa duração, pois consigo me tornar mais íntima das pessoas e/ou dos lugares retratados e, assim, ir mais a fundo na narrativa. os registros que faço vão desde acontecimentos pontuais, como a ocupação dos colégios no rio de janeiro, até elementos cotidianos, como as pessoas e as ruas do bairro onde moro. de todo modo, meu dia a dia reflete muito nos meus projetos. desde que me matriculei na uerj, em 2016, tenho documentado as mudanças e as dificuldades que a universidade tem passado. foi só depois que percebi que o material produzido tinha potencial de se tornar uma série fotográfica. e era até mais do que isso: tratava-se da construção de uma memória afetiva. a minha fotografia se baseia nisso.

 

sofia leão, uerj pelo avesso, rio de janeiro, 2017 © sofia leão, rio de janeiro, 2017. © sofia leão

em
2018 pretendo montar um laboratório em casa para revelar meus filmes e ter mais
controle do resultado final. quero também estudar mais a fundo alguns processos
alternativos, como o cianótipo e a goma bicromatada. mas, meu maior plano é  fazer um fotolivro artesanal com alguns projetos que realizei nos
últimos dois anos.

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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