don mccullin, untitled, northern ireland, 1971. © don mccullin / contact press images

KODAK TRI-X 400

poderíamos inaugurar uma seção sobre filmes fotográficos, e nesta, discorrer sobre positivos, negativos, sobre latitude, sobre os pros and cons desta fotografia que (sobre)vive em uma era digital. poderíamos, no entanto, lhes dizer algo mais objetivo, como por exemplo: compre um kodak tri-x 400 e seja feliz. com certeza, desta forma teríamos menos esforço. mas... como aqui estamos para hastear esta bandeira, let’s get to the point:

em 1954, o kodak tri-x 400 surgiu como um negativo preto e branco para câmeras 135 e 120 (pequeno e médio formatos, respectivamente). em decorrência, esta película destacou-se como o maior hit da indústria, e de acordo com a kodak, tornou-se o best-seller da empresa.

porém, ao que deve-se este sucesso? o tri-x revolucionou o planeta por um avanço tecnológico. os filmes fotográficos classificam-se pela sensibilidade, ordenada pela sigla asa (hoje, em sensores digitais, o equivalente ao iso). quanto maior este número, maior a sensibilidade à luz (velocidade, na linguagem fotográfica). o tri-x possui asa 400, algo extremamente veloz para a época, e, acima de tudo, possui uma latitude estonteante.

mas espera, latitude? o que isso significa?

latitude: a capacidade que um filme fotográfico possui em ser subexposto ou superexposto. a gama de brancos, cinzas e pretos, que este filme pode capturar entre áreas de altas luzes, luzes, e baixas luzes, ou seja, a gradação de tons.

desta forma, o tri-x destaca-se como um filme flexível, e mesmo que a exposição esteja errada, pode-se obter ótimos resultados. por este fator, o tri-x proporcionou o push e o pull processing (epa, mais termos complexos!).  estes dois processos, surgiram como soluções para situações extremas, como fotografar as 23h, sem flash, por exemplo. nesta condição, seria impossível fotografar com um tri-x, certo? 

errado, pois com um push de 2 stops - logo, com asa 1600 - seria possível.

o push processing, ocorre quando você determina ao fotômetro de sua câmera uma asa maior do que a asa nativa (o valor asa original). por exemplo, fotografa-se com um tri-x, o qual sabemos que possui asa 400, mas, indica-se no dial de sua câmera o valor de 1600, e assim, você fotografa. com isto, você estaria subexpondo o seu filme em 2 stops, certo?

certo, porque estaríamos expondo uma película de asa 400 em asa 1600.

mas e agora, que você subexpôs os 36 fotogramas? como prosseguir? acalme-se, jovem. a química, assim como nos ensinou walter white, está aqui para nos ajudar. e, através da revelação, podemos compensar esta subexposição.

mas como?

simples. caso usássemos o tri-x em 400 seriam necessários 6min45s para revela-lo no d76 (o kodak d76 destaca-se como o revelador standard da kodak). caso o usássemos em 1600, seriam necessários 10min45s  para revela-lo no mesmo d76. ou seja, o laboratorista deixa o revelador agir por mais tempo, recuperando assim, a subexposição.

no entanto, existe um preço por isto: acréscimo de contraste, aumento de grão e perda de informação nas sombras. no caso do pull processing, quando você determina ao fotômetro de sua câmera uma asa menor do que a asa nativa, o resultado torna-se o inverso. decréscimo de contraste e diminuição de grão, gerando uma imagem predominantemente cinza. este processo, no entanto, sempre foi menos utilizado do que o push.

este fator, proporcionou então, o ápice do fotojornalismo, pois possibilitou aos fotógrafos a capacidade de fotografar em condições desfavoráveis, e, ainda além, a capacidade de adicionar drama aos subjects. esta película, inaugurou um look. uma estética. o fator tri-x: contrastado, dramático, granulado

daido moriyama, provoke no. 2, 1969. © daido moriyama

para compreender o valor desta película, podemos nos ater à declaração de don mccullin à 1843 magazine, quando em 2012, com o colapso da kodak, surgiram descrenças sobre a produção do tri-x:

“i rang up my stockist and asked for them right away. i thought it was the end of my life. i don’t even know if they are still making it.”

mas, graças aos deuses, don mcculin não precisou preocupar-se. a kodak alaris surgiu e assumiu a missão de produzir filmes fotográficos, e até hoje, os vem produzindo com excelência. assim como mcculin podemos compor um cenário com alfred eisenstaedt, daido moriyama, garry winogrand, henri cartier-bresson, josef koudelka, nobuyoshi araki, entre fotógrafos que modificaram a concepção humana sobre o planeta, utilizando-se deste filme: o kodak tri-x 400.

caso esta pérola - envolta em metal - não existisse, a fotografia (como a conhecemos) não existiria. logo: compre um kodak tri-x 400 e seja feliz.

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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