tuane eggers, das ínfimas grandezas da infância, brasil, 2015. © tuane eggers

MINAS ANALÓGICAS

em tempos ainda mais sombrios para as mulheres, quando a história da fotografia engatinhava, muitas tiveram seu primeiro contato com o suporte realizando serviços de laboratório, acabamento e fotopintura para maridos ou pais fotógrafos. constance, a esposa de henry fox talbot, por exemplo, ajudou a desenvolver os papéis sensíveis a luz que depois dariam a ele o direito de reclamar o posto de daguerre.

dos quase dois mil estúdios de daguerreotipia na inglaterra dos anos 1850, apenas 22 foram operados por mulheres. mas vocês sabiam que a primeira fotografia de paisagem foi feita por uma fotógrafa? ann cooke. engraçado ouvirmos tão pouco sobre ela.

no brasil, gioconda rizzo foi a primeira mulher a ter a autoria de seu trabalho reconhecida. aos 17 anos ela montou seu estúdio próprio, o photo femina, que revolucionou os retratos feitos na época e chamou a atenção da alta sociedade paulista. seu pai a proibiu de fotografar homens e fechou seu estúdio com dois anos de vida, porque descobriu que ela fotografava cortesãs. 

gerda taro registrou a guerra civil espanhola e morreu aos 26 anos atropelada por um tanque. mas ela muitas vezes só é lembrada como a namorada do grande robert capa, embora a autoria dos dois muitas vezes se confunda. e o que conhecemos do trabalho da margaret bourke-white, pioneira durante a segunda guerra mundial e a primeira fotógrafa da life? você vai reconhecer muitas fotos dela, mas é engraçado que esqueçam de citar o nome dela em tantas aulas da história da fotografia.   

em 1951, na grã-bretanha, apenas uma mulher atuava formalmente no ramo. dez anos depois eram 204. diane arbus, dorothea lange, eve arnold, hellen levitt, lee miller, ruth bernard… quantas mulheres são autoras e não modelos entre os livros de fotografia que você tem em casa? 

criado em 2016, o grupo minas analógicas tem mais de 300 participantes no facebook. para entrar você só precisa: um, ser mulher; dois, fotografar em filme. de todo canto do país, e até do exterior, elas compartilham imagens, dicas, textos, cursos… e denúncias. o objetivo é ser um canal entre fotógrafas amadoras e profissionais, totalmente livre de machismos.

a fundadora, júlia brummer, conta que muitos homens tentam entrar, até com contas falsas, morrendo de curiosidade sobre o que falam estas mulheres de tão secreto. nós não vamos entregar pra vocês as bruxarias, risos, mas conversamos com a júlia e outras duas integrantes do grupo, radka smolíková e tuane eggers sobre a importância da sororidade em tempos que o feminismo precisa ser tão reafirmado:

como você começou a fotografar?

júlia brummer, joinville, brasil: bem, se formos contar cronologicamente foi aos 3 anos de idade. meu pai segurou minhas mãos com uma yashica compacta e eu fotografei um passarinho voando. mas a minha primeira câmera eu mesma comprei pelos 13, 14 anos, mas eu não contei pra ninguém, com medo de brigarem comigo por ter gastado dinheiro com algo estúpido. mas, honestamente, o que me instigou a fazer isso foi o objetivo de encontrar um escape pros problemas psiquiátricos complicados que eu tinha. desde sempre eu me interessei em ir fazendo registros e o que eu mais fotografava eram paisagens e alguns retratos aleatórios.

júlia brummer, terra dos sonhos, brasil, 2017. © júlia brummer

tuane eggers, lajeado, brasil: comecei a fotografar quando tinha uns 15, 16 anos... experimentando usar uma câmera digital muito simples do meu irmão. naquela época usava muito o fotolog como um meio para mostrar minhas imagens - era uma forma de mostrar para o mundo que eu existia, naquela cidadezinha do interior em que eu não me identificava.

radka smolíková, praga, república tcheca: minha jornada analógica começou em agosto de 2014, quando eu vi umas das câmeras da lomo no facebook. eu me interessei imediatamente e depois de alguma pesquisa eu comprei a câmera. não sabia nada sobre fotografia analógica, então eu aprendi muito online, lendo livros e conversando com pessoas da comunidade analógica, além de aprender no erro e acerto. 

conte sobre sua primeira câmera analógica.

júlia - minha primeirona da vida foi herdada dos meus pais, uma yashica me-1, que não durou muito tempo. mas a primeira que eu realmente usei quando tinha plena consciência do que estava fazendo era uma dessas câmeras de r$20 compactas, uma mitsuca big boy, que tenho até hoje. em 2013 eu tinha um trabalho da faculdade pra fazer, era um projeto de uma coleção de joias inspirada nas formas do rio de janeiro, aí fui viajar pra cidade pra fazer um reconhecimento. eu fotografei tudo em filme, justificando que essa escolha tinha sido inicialmente minha e não uma emergência desesperada porque a câmera digital tinha pifado.

radka - minha primeira câmera era uma diana f+. eu ainda adoro ela, embora eu não a use mais. amava usar os acessórios diferentes que vieram com  ela! é uma ótima câmera pra experimentar. quando eu estava fotografando o meu primeiro rolo, fiz uma dupla exposição da minha irmã, no meio do campo. essa continua sendo uma das minha fotos preferidas feitas com essa câmera.

tuane - minha primeira câmera analógica é a que uso até hoje, uma canon 300. na verdade, peguei emprestada de um amigo temporariamente, mas nunca mais consegui devolver, então acabei comprando ela.

radka smolíková, sister, república tcheca, 2014. © radka smolíková

por que o filme?

júlia - eu comecei no digital e migrei pro filme. me interessei em mexer com o analógico porque ele é essencialmente um processo artesanal e eu sou dessas, ponto. eu gosto de bordar, plantar, pintar… gosto de fazer as coisas com as mãos. é claro que conforme eu fui estudando, montando meu arsenal e fazendo experiências pra ir chegando nos resultados que eu almejava eu fui compondo o meu repertório de justificativas baseado em outras coisas de maior relevância, como o poder de autenticidade por exemplo. também tornei as cores a minha especialidade e lidar com a dinâmica do pigmento físico – filmes e química – é muito mais interessante do que interpretar o pigmento luz, que é o que um sensor digital produz, no caso. mas a real é que eu sou uma pessoa do rolê desacelerado e de fazer as coisas manualmente mesmo, pra mim isso é muito mais prazeroso.

tuane - um dos motivos do meu encantamento pela fotografia analógica é a questão da fisicalidade: gosto muito de pensar que a imagem está realmente gravada de maneira física ali no negativo, não sendo apenas um conjunto de pixels. outro ponto é a questão do tempo envolvido no processo. gosto de sentir também esse reencontro com a imagem, por esse lapso de tempo entre a captação e a revisitação. recentemente, aconteceu um acaso muito bonito (e um pouco assustador no início) quando molharam alguns filmes que eu havia fotografado. pensei que eles pudessem ter estragado, mas algumas imagens ficaram com manchas muito interessantes, que interviram na fotografia de um jeito mágico. então, também tem essa maior aceitação de possíveis erros.

tuane eggers, das magias que ficam gravadas na retina do coração, brasil, 2017. © tuane eggers

radka - eu vejo como um meio criativo, um campo possível para cair arte. amo o processo por trás disso e a adrenalina de esperar o negativo revelar. gosto de poder experimentar de diferentes formas e adoro as falhas que vem com isso também. é mais como pintura pra mim, digital parece muito intangível. 

a fotografia ainda é um meio majoritariamente masculino. você se sentiu castrada em algum momento profissional por ser mulher? 

júlia - o que eu presencio dentro do meio fotográfico são assédios morais, físicos e sexuais. isso vai desde passadas de mão até estupros. ameaças, pressões psicológicas em troca de favores ou projeção, grupinhos que se une em uma panelinha pra apedrejar uma pessoa se ela não dançar conforme a música que eles toquem, manipulação intelectual (que acontece quando monopolizam um conteúdo e chantageiam pessoas em troca de informações) e por aí vai. e mais uma vez: isso vem em maioria violentíssima de homens. eu já perdi a conta de quantos 'mas o que eu ganho em troca disso depois? podia me mandar uma fotinho de nude tua né, tu já faz isso mesmo…'. rolou o escândalo de um tiozão canadense que brotou do nada dando carteirada e dizendo que 'aquilo ali jamais seria uma foto de filme, uma jovenzinha como eu não saberia nem o que era um dr-5' - que é um processo de revelação que positiva um filme preto e branco. e uma vez um fotógrafo veio se fazendo de cachorrinho que caiu do caminhão da mudança dizendo que ele nunca tinha encontrado ninguém em quem confiasse pra mostrar fotos de nu que ele fez dele mesmo. nos três meses seguintes era todo santo dia foto desse cara pelado no meu inbox. teve uma outra vez em que eu me envolvi (por internet mesmo) com fotógrafo bem conhecido de são paulo, que por ter ganho um 'fora ele saiu me queimando e ainda me queima pra todas as pessoas que ele conhece.

júlia brummer, pimentão, brasil, 2017. © júlia brummer

tuane - me sinto castrada a cada vez que vejo que em resultados de concursos e prêmios, e mesmo nas programações de festivais, os homens seguem sendo a maioria. e isso não acontece pela ideia de que mulheres fotografam menos: pelo contrário, as mulheres têm sido cada vez mais presentes na fotografia. espero que isso também se reflita cada vez mais na inserção nos meios "consolidados" da fotografia contemporânea.

foi por essas que resolveu criar o grupo?

júlia - sim! fora o que já rolou comigo, uma coisa que as meninas sempre me relatam é que se sentem coagidas e envergonhadas de exporem seus materiais em grupos de predominância masculina. rola um medo de ser avacalhada por estar começando ou por não se igualar ao que a elite controladora desses espaços faz. me enchi o saco, saí de quase todos os grupinhos badalados de fotografia e comecei a fazer a minha parte pra mudar essa cena, aí fundei o minas analógicas no início de 2016. o maior objetivo é fornecer um espaço no qual as mulheres possam aprender entre si sem serem importunadas por comportamentos anti-éticos e invasivos. ali compartilharmos perguntas, instruímos sobre equipamentos e processos, falamos da mulher dentro da fotografia, divulgamos eventos e assim por diante. ainda somos escassas as que realmente entendem o analógico no cerne, eu sou uma das poucas que além de fotógrafa é professora de história da fotografia e de práticas analógicas, mas de pouquinho em pouquinho vamos instigando as meninas a aprenderem mais e ajudarem as próximas que estão querendo entrar nesse meio.

radka smolíková, red rose, república tcheca, 2014. © radka smolíková

achei genial a ideia da pastinha das minas. quais as outras ações (encontros, debates, exposições, etc) que o grupo promove?

júlia - a pastinha é a mais autoexplicativa, ela serve como um local organizado que é uma extensão do grupo no qual podemos postar documentos, artigos, pdf's, filmes e afins sobre o universo fotográfico (em foco o analógico) e também algumas coisas relacionadas ao papel da mulher na fotografia e assim por diante. quanto aos debates geralmente alguém sempre vem e levanta alguma questão, como acontece em outros grupos. já falamos sobre várias coisas relacionadas ao corpo da mulher, colocação e oportunidade no mercado de trabalho, violência e assédio no ambiente profissional fotográfico, falta de representatividade, etc; nós sempre incentivamos que essas questões sejam colocadas em pauta pra irmos aos poucos caminhando e alterando o futuro em relação aos problemas que ocorrem hoje. as minas também são motivadas em compartilhar iniciativas próprias ou de instituições das quais fazem parte, divulgando workshops de fotografia analógica em suas cidades e promovendo palestras acerca do tema. por isso, acredito que uma das maiores funções que o grupo tem é possibilitar as relações interpessoais saudáveis entre mulheres e criar uma manta de comunicação forte que costura todas as minas que mexem com comunicação de imagem alternativa.

júlia brummer, tulle, brasil, 2017. © júlia brummer

a fotografia de nu ainda é um lugar onde a ordem 'homem fotógrafo / mulher modelo' ainda é muito mais numerosa. acompanhamos denúncias de abuso e machismo todos os dias e questionar isso talvez motive muitas fotógrafas a explorar o tema... você acha que estamos só reproduzindo o nu feminino fotografado por homens ou existe uma revolução de sentido e motivação?

júlia - essa pergunta é maravilhosa porque ela toca em muitas feridas abertas. com toda a certeza as mulheres estão se levantando e gerando uma retórica, tanto em termos de representatividade no mercado de trabalho quanto em outras formas de explorar o nu que não sejam restritas a ensaios sensuais/eróticos. porém é aquela coisa: a gente primeiro precisa construir algo pra depois desconstruir, se a massa que ainda predomina no mercado são os homens eles vem como maior fonte de referências e isso torna-se muitas vezes uma associação quase direta quando você busca inspirações. é sem dúvida importantíssimo que mulheres estejam encontrando formas de dar valor a outras mulheres por meio da fotografia de nu, por meio do reconhecimento do corpo como forma de empoderamento. mas ainda falta um amadurecimento desse pensamento todo porque o que temos ainda é uma faca de dois gumes, pois ainda que seja lindo ver a mulherada criando coragem e fazendo foto de nu é mais uma vez (e em escala de milhões) o corpo nu da mulher que está sendo veiculado e vendido. o trabalho com nu precisa ser amarrado de um jeito muito perfeito pra não trazer a linguagem de invasão e isso tem que ficar claro que é coisa pra profissional abordar.

você acha que existe uma 'perseguição' ao corpo da mulher? o que a censura censura da nudez nas redes sociais tem a ver com machismo?

júlia - quando a gente fala do corpo da mulher existe uma aura de adoração em torno, seja pelo viés poético e barroco, cheio de quinhentos tipos de adjetivos rebuscados pra nos indicar como deusas ou pela questão sexual e até pornográfica mesmo. estão atacando o trabalho de outras mulheres que estão abordando a nudez masculina pra voltar o centro da discussão pra nós mesmas! isso é arte feminista também! eu procuro explorar a nudez feminina que incomoda mais e gera grandes questionamento, como a da mulher gorda (que fique claro que eu não excluo outras mulheres, mas dou prioridade pro que como artista eu acho mais interessante e pro que me identifica melhor como mulher). eu tive meu site derrubado por um grupinho de gente preconceituosa que fez um pandemônio por causa de fotos de gays e mulheres gordas nuas. além de tirarem o meu site do ar eles invadiram meu e-mail e vazaram dados pessoais meus.

júlia brummer, gaia, brasil, 2017. © júlia brummer

tuane - é estranho pensar que no contexto artístico exista essa censura, mas sabemos que é exatamente por isso: quando as imagens tentam fugir do âmbito da mercadoria e questionar padrões institucionalizados, elas são censuradas. e isso, obviamente, afeta muito a divulgação dos trabalhos que se propõem a questionar esses temas.

quais tuas fotógrafas preferidas e por quê?​​​​​​​​

júlia - madame yevonde, sem dúvida alguma. eu queria ser uma reencarnação dela e na real eu a descobri quando já tinha boa parte do meu repertório, estilo e ideologias formadas. ela foi uma fotógrafa britânica da década de 30 e uma das pioneiras mundiais em trabalhar com cores, naquela época havia um grande preconceito com esse tipo de estética (porque o mercado era controlado por homens que fotografavam só em preto e branco 'perfeito' e ainda estavam em briga contra o pictorialismo). ela aprimorou um método de cor que virou a marca registrada dela, o chamado vivex print, que consistia na utilização de celofanes coloridos na frente das lentes de uma câmera usada só pra esse processo, expondo uma mesma placa a três nuances de cor e depois compensando a impressão offset com contraste de cor manual. ela também foi uma das primeiras a registrar algo de caráter mais conceitual dentro da moda, fotografando damas da sociedade britânica vestidas como deusas gregas em toda uma produção feita a mão, trabalhada com atenção aos detalhes e cheias de cores. pra finalizar, ela também era sufragista. ou seja, ela é praticamente a minha mãe dentro da fotografia.

radka - sarah ashley eiseman - adoro a paleta de cor e a liberdade que ela consegue captar em suas fotos – kate hook - pelas suas maravilhosas duplas exposições e fotos simétricas arquitetônicas - camila guerreiro - tem uma atmosfera incrível e muita poesia - polina washington - com suas fotos mágicas feitas com filmes ensopados - la fille renne - com seus lomochromes - e júlia brümmer - por seu trabalho cheio de cores e tão verdadeiro com o que ela acredita.

tuane - tem muitas fotógrafas incríveis que me inspiram muito, com estilos bem diferentes, inclusive. por exemplo, aëla labbé, francesca woodman, vivian maier, sally mann, nan goldin, diane arbus, entre tantas outras. mas, posso citar também algumas amigas que têm trabalhos lindos e que me inspiram muito também, como ieve holthausen, chana de moura, rochele zandavalli e carine wallauer.

tuane eggers, há vida por todos os cantos, brasil, 2014. © tuane eggers

cite algumas fotógrafas que devemos acompanhar

júlia - de brasileiras eu gosto muito do trabalho da tuane eggers e da carine wallauer (ambas analógicas e membros do grupo), elas tem uma forma de poesia só delas e dá pra ver que elas não só fotografam com filme, como também entendem um pouco de química e técnicas analógicas, o que pra mim torna-se muito mais interessante e completo. de fora eu gosto demais do trabalho da katie eleanor, ela tem um tipo de linguagem não óbvia muito bem estruturada. eu também sou grande admiradora do trabalho da alex prager, ela é além de fotógrafa cineasta e trabalha muito com a tecnologia do technicolor aplicada às fotos e filmes que ela produz (como uma 'color psycho' eu me derreto por esse tipo de atenção cuidadosa a elementos tão importantes como a cor).

radka - recentemente eu descobri o trabalho da tereza zelenková, uma jovem fotógrafa tcheca. ela se inspira em antigos contos e lendas do nosso país, o que é brilhante. ela também fotografa em vários lugares místicos daqui.

o que te inspira a fotografar?

júlia - literalmente qualquer coisa, meu processo criativo é uma bagunça porque eu absorvo muita informação o tempo todo. mas acho que se tem algo que me motiva e inspira é saber que eu posso me utilizar desse canal de comunicação pra provocar, questionar, incomodar. é um abridor infinito de portas pra se falar de tudo.

radka - a maior parte da minha inspiração vem da vida cotidiana. eu fotografo minhas aventuras, viagens, família e amigos. a natureza também me inspira, assim como a comunidade analógica online, especialmente em experimentações, como sopas, duplas exposições, ebsexpose both sides - e intercâmbio de filmes.  

radka smolíková, hanging out, república tcheca, 2017. © radka smolíková

tuane - uma das coisas que mais me inspiram a fotografar é a beleza e o mistério da natureza. e me encanta essa capacidade que a fotografia tem de registrar algo que aconteceu ou existiu no mundo – mas, de criar também um mundo à parte, um mundo inventado a partir do real. a fotografia representa um paradoxo entre o espaço e o tempo - enquanto ela congela o espaço, o tempo continua latejando dentro de uma imagem infinita.

qual teu sonho como fotógrafa?

júlia - eu acho que eu quero um dia poder dizer que a gente teve mudanças sociais, políticas e estruturais em geral efetivas estabelecidas por meio de uma linha comunicativa de mulheres que trabalham com a imagem. trabalhar com o registro de um tempo ou época é extremamente importante, mas a gente precisa entender o potencial do produto imagético que sai de dentro das nossas cabeças. 

radka - eu adoraria conhecer todas os fotógrafos com quem eu já troquei filmes. é maravilhoso trabalhar junto em um projeto, então conhecê-los seria uma honra! a longo prazo meu sonho seria viajar mais, podendo fotografar lugares incríveis ao redor do mundo.

tuane - confesso que quando comecei a fotografar, não poderia imaginar que minhas imagens teriam o alcance que já tiveram - pode parecer pouco à primeira vista, mas elas estão presentes, por exemplo, no filme 'os famosos e os duendes da morte', e também em 'o filme da minha vida' de selton mello. meu trabalho já foi exposto em países como dinamarca, inglaterra e rússia. mas, mais do que isso, é como se meu sonho como fotógrafa fosse realizado a cada vez que recebo uma mensagem de alguém que se sentiu realmente tocado pelas minhas imagens. é nesse reconhecimento pelo olhar do outro que a fotografia faz sentido, e quando alguém manifesta isso, me sinto preenchida.

tuane eggers, retrato de um rio que passou, brasil, 2016. © tuane eggers

que dica você daria pra uma mina que tá começando?

júlia - não vai ser nem um pouco fácil, mas respire fundo e mantenha a sanidade, você ocasionalmente vai ter que engolir alguns sapos e vai ter medo, mas tenha certeza que você não está sozinha e que tem outras que te apoiam, te entendem e não vão te julgar. você pode pedir ajuda, não tem nada de errado nisso e é assim que se aprende. por fim: controle a ansiedade, tudo tem o seu tempo e aos poucos as coisas se encaixam, não se cobre tão duramente porque tem coisas que irão fugir ao seu controle e disso a natureza se encarrega.

radka - experimente alguma máquina manual antiga primeiro pra aprender todos os comandos e aprender como eles funcionam entre si. então, não tenha medo, erre, experimente. e, o mais importante, se divirta!

tuane - acho que o simples fato de uma mina fotografar ou fazer qualquer coisa que tiver vontade já é um ato político e feminista, então o que posso dizer é pra continuarem seguindo todos os seus desejos.

radka smolíková, light, república tcheca, 2015. © radka smolíková

autor

Juliana Rocha

fotógrafa por urgência criativa.

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