athos souza, sem título, serra do cipó, 2018. © athos souza

MOFO

há algo que cresce no centro de belo horizonte. e, pelo que parece, não há de se parar por agora. como um fungo que sobe pelas paredes, cresce. no escuro e em silêncio, cresce.

 

poderíamos escrever sobre bolor, ou sobre os problemas que causam em nossos equipamentos. mas, agora escreveremos sobre o mofo.

 

um projeto que nos prova o porque o filme vive. mais do que um laboratório, um coletivo. um grupo de fotógrafos que, unidos, vivem por e pelo filme fotográfico.

 

com vocês, o coletivo mofo:


rafael rasone, sem título, salvador, 2017. © rafael rasone

conte-nos sobre como surgiu o mofo e sobre os fotógrafos que o fundaram.

o coletivo surge da construção de uma comunidade analógica independente em belo horizonte, minas gerais. o mofo, em si, é relativamente recente, mas as atividades com fotografia analógica envolvendo seus membros começaram em 2010, com carlão e vitor jabour. os dois começaram a pesquisar sobre a fotografia em filme, experimentar com películas de cinema e compartilhar com a cena local. na época, criaram a paranoid photos, que distribuiu rolos e rolos de kodak vision 3 500t e fuji reala 500d na cidade. em 2014, a comunidade analógica da cidade cresceu, e juntamente com outros analógicos, organizou-se o elfa - exposição livre de fotografia analógica. o festival criou uma convocatória para envio de fotografias, organizou oficinas de intervenção em imagem, revelação com cafenol, retratos, etc. em 2016, o rafael rasone uniu-se ao duo para organizar o festival livre de fotografia analógica, agora com exposições, oficinas de revelação e digitalização e mais. 2017 foi um ano especial, pois foi quando a organização tomou a forma que tem hoje. foi quando carlão, vitor e rafael começaram a ocupar uma sala em mais um projeto, o almeida centro de inspiração. aqui, convidaram erick ricco para fazer parte do coletivo. no processo, se juntaram ainda piero davila, bernardo silva, athos souza e nathália santos.

hoje somos 8 fotógrafos com caminhos diferentes. cada um com sua experiência, sua linguagem e sua trajetória. nos esforçamos para manter o coletivo como um espaço de apoio para cada um sem determinar como cada um deve trabalhar.

erick ricco, sem título, rio de janeiro, 2018. © erick ricco

athos souza é fotógrafo e videomaker, nascido no norte de minas gerais, e tem uma obra que reflete sobre a sua trajetória. erick ricco é cineasta, possui profunda experiência com cinema em película e uma linguagem particular. o bernardo trabalha com fotografia de casamento e é hoje um grande pesquisador dos processos químicos para revelação e tecnologias de digitalização de películas a nathália santos tem um olhar sobre a intimidade das relações no mundo contemporâneo que nos encanta muito. rafael de souza fotografa o cotidiano das ruas com intensidade, o carlão começou com fotografia de arquitetura e hoje pesquisa curadoria e crítica, o piero d'ávila registra moda e também está de cabeça na fotografia analógica, e o vitor jabour fotografa comportamento e moda, com uma linguagem que reflete sobre os anos 1990.

piero d'ávila, sem título, belo horizonte, 2018. © piero d'ávila

e de que forma o mofo atua?

desde que nos comprometemos a ter um espaço físico, com estrutura que atendesse aos integrantes, temos prestado alguns serviços para a comunidade analógica de belo horizonte. este processo surgiu como uma maneira de ajudar o coletivo a se manter; pagar aluguel, manutenção das máquinas, etc. além de oferecer um filme de boa qualidade por bom preço, que é nosso fuji "mofo" super 250d. a nossa revelação e digitalização de negativos garante uma qualidade superior às oferecidas pelos laboratórios da cidade, e isso faz com que a comunidade retorne ao mofo para um serviço mais cuidado e correto.

 

carlão, sem título, santiago, 2016. © carlão

o que o coletivo permite para o universo da película em belo horizonte e no brasil nos emociona. nos explique como vocês conseguiram coragem para propor esse projeto em um país que dificulta (e demais) a compra de filmes, químicos e assim por diante. 

talvez seja o ponto mais difícil de responder, risos! até hoje nos surpreendemos com a coragem de montar um lab independente que subsidia o trabalho artístico de cada um e ainda contribui para uma cena, cada vez mais forte, de belo horizonte. acreditamos no poder do trabalho coletivo sem nos iludir. aqui já possuímos experiência em projetos colaborativos, coletivos, grupos artísticos, e todos sabemos que além das limitações financeiras e técnicas, a organização em torno de projetos mais ambiciosos é exaustiva. mas seguimos fortes renovando as energias a cada passo.

carlão, sem título, santiago, 2016. © carlão

como começaram a comercializar um dos primeiros passos do projeto: o fuji mofo f-250d? e em números: como foi o filme?

o fuji mofo vem de uma longa pesquisa com filmes de cinema que começou com uma lata de kodak vision 3. carlão e vitor ficaram obcecados com as possibilidades e pelo prazo de um ano, eles pesquisaram, semana por semana como utilizar os filmes na fotografia. na época circulava a informação de que os minilabs não poderiam revelar os filmes de cinema porque o remjet poderia estragar os equipamentos. depois de muito conversar com os laboratórios, descobrimos que era possível fotografar com o filme de cinema e fazer a limpeza manualmente após o processo, evitando, assim, danos aos minilabs. em seguida, eles começaram a fazer testes e mais testes, ler manuais de filmes, de químicos, chegaram a comprar latas e latas de cinema com a kodak e também compraram latas encalhadas em produtoras de cinema. assim, montaram a paranoid photos e venderam muitos filmes! e assim, chegaram ao fuji mofo. desde então, foram mais de 300 filmes para o brasil inteiro. o sucesso nos fez perceber que somos melhores como artistas do que como empreendedores, já que não temos números precisos e nem estamos com nossa saúde financeira em dia. risos!

vitor jabour, sem título, belo horizonte, 2018. © vitor jabour

quais os desafios e dificuldades que vocês encontraram até aqui?

as dificuldades são muitas. primeiro, não é fácil manter manter uma estrutura que possibilite retomar experiências com analógicos. como vocês mencionaram em outra pergunta, não é fácil acessar películas e químicos. com a alta do dólar, películas de cinema frescas encareceram muito. filmes frescos também estão cada vez mais distantes. sentimos falta de uma proximidade dos fabricantes com os movimentos e coletivos se organizando pelo mundo. falta apoio e incentivo.

já os desafios, eles são importantes em certa medida, pois nos ajudam a chegar mais longe. um exemplo disso é o empenho que temos para organizar o coletivo de maneira sustentável, dividir as tarefas internas sem sufocar cada integrante. não é fácil, mas quando avançamos é gratificante.

bernardo silva, sem título, itaúnas, 2018. © bernardo silva

cite pessoas e projetos que os inspiram e que os ajudaram à criar o coletivo.

são muitas inspirações, mas podemos dizer que a linha mais experimental é o ponto comum, e ela não fica só no analógico, mas na maneira de fazer as coisas. aqui em bh, temos o alexandre lopes que sempre compartilhou conhecimento sobre processos da película, da fotografia à ampliação. em são paulo, o guilherme maranhão, que tem pesquisas sobre scanners e obras fabulosas, a carine wallauer, o eduardo bichinho, e, mais recentemente o trabalho de vocês!

 

nathália santos, sem título, porto alegre, 2018. © nathália santos

e para o futuro? mais filme? mais químicos? mais serviços? quais os planos?

esperamos um futuro com uma maior produção artística do coletivo. para isso, precisamos organizar os investimentos em equipamentos de uso coletivo, melhorar o processo e a prestação de serviços para que ela não nos ocupe tanto. também queremos melhorar a interlocução com pessoas e coletivos de outras cidades do país, ampliar a rede de trocas, pensar em projetos coletivos, e assim por diante.

athos souza, sem título, serra do cipó, 2018. © athos souza

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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