guilherme machado, williamsburg bridge, nova iorque, 2015. © guilherme machado

MORO NO RIO

neste #álbumaberto expomos os processos e os projetos de guilherme machado. em um vai-e-vem entre o brasil e os eua, o fotógrafo discute sobre as fortunas da fotografia e as emoções que a permeiam seus ensaios.

com vocês, guilherme.

por que 'moro no rio'? como funciona o projeto? conte-nos mais sobre!

guilherme machado - o moro no rio nasceu porque eu sempre vi ‘i love ny’, ‘paris jet'aime’ e senti falta de uma 'campanha' de amor ao rio de janeiro. então, o leo uzai (artista plástico) e eu iniciamos o moro no rio, como um blog com imagens pessoais, com um caráter de diário pessoal. o projeto foi crescendo até que virou um coletivo de artistas. nós ja usamos a plataforma pra divulgar trabalhos de novos talentos ao lado de artistas mais reconhecidos. já organizamos uma exposição coletiva em nova iorque e duas no rio de janeiro. acho que foi tudo muito orgânico. quando começou a gente não imaginava que seria possível chegar tão longe... como a maioria das fotos eram em película, eu sentia falta de algo físico, e foi assim que começamos a publicar zines. nós já lançamos quatro zines com a editora: um coletivo, um do fotógrafo demian jacob, um do designer yomar augusto e um meu. teve outra época em que eu tava super ligado à serigrafia, e foi quando fizemos camisetas e tote-bags com a marca pra distribuir pra nossos amigos. acho que foi nas camisetas onde a ‘campanha’ acabou se manifestando e passou de uma idéia pra algo real.

guilherme machado, curtis kulig, nova iorque, 2013. © guilherme machado

por que optou pela fotografia como suporte para o projeto?

gm - na real, não teve um pensamento por trás. foi espontâneo... criei um tumblr e postei as fotos.  

e, por falar em suporte… por que a película? 

gm - meu pai faleceu quando eu tinha um ano de idade, então, eu não tenho memória dele. só o vi em fotografia. quando eu fiz 18 anos a minha avó me deu todos negativos dele. ele tinha sido fotógrafo quando era novo e isso me fez enlouquecer com a película. o fato de ter ‘conhecido’ ele através das fotos que ele tirou foi muito marcante na minha vida, e foi detalhe fundamental pra minha escolha. além do lado emocional, eu também fotografo em digital, mas a textura de uma foto em filme, ainda mais com uma lente boa, tem uma característica muito específica que eu não consigo reproduzir com o digital. ainda por cima, eu não tenho muita paciência de editar muito as minhas fotos e com filme, a maioria delas nem precisa de ajustes. do jeito que vem do labolatório, o mesmo que revela e escaneia todas as minhas fotos, eu publico. muitas vezes eu nem mexo. 

guilherme machado, lary arcanjo, nova iorque, 2016. © guilherme machado

explique-nos sobre o seu processo… o que você busca quando fotografa? e o que sente? 

gm - quando eu fotografo, eu tô sempre buscando o momento perfeito. eu quase não uso lentes com auto-foco, então, eu encontro o foco e fico esperando o momento certo pra apertar o shutter. já fiz ensaios com apenas 2 rolos de filme que saíram fotos incríveis. eu gosto muito de fotografar pessoas. quando fotografo moda, por exemplo, gosto muito da interação com a modelo, com os stylists, maquiadores e etc. adoro experimentar numa locação e encontrar momentos mágicos não-planejados. às vezes, as melhores fotos surgem no momento quando bate uma luz diferente... que dá um reflexo que eu não tinha percebido... e então tudo se encaixa. eu lembro muito quando fiz a exposição no rio e vocês, do álbum, me perguntaram se eu tinha planejado o light leak. na verdade, foi um acidente, porque eu achei que já tinha rebobinado o filme da minha contax g2 então abri sem querer. foram as melhores fotos do ensaio, disparado.

guilherme machado, clare gillies, nova iorque, 2013. © guilherme machado

existem fotógrafos que desenvolvem obras e obras em apenas um local. e, por incrível que pareça, não conseguem fotografar em outro. por outro lado, existem os que precisam ir aos mais diversos países para produzir. como funciona para você este vai-e-vem entre o rio de janeiro, o local onde nasceu, e nova iorque?

gm - eu gosto de viajar. inclusive, prefiro fotografar (street) em lugares novos. eu carregava uma point-and-shoot pra todos cantos de nyc. hoje em dia, já não me interesso mais tanto no que encontro por aqui no dia-à-dia. quando viajo estou sempre com uma câmera... porque me emociono mais com o desconhecido. não sei porque. como tenho passado pouco tempo no rio, acaba que eu me sinto mais interessado em fotografar o próprio rio do que nova iorque. como eu revelo tudo em ny também tem a emoção de depois da viagem ver todas as fotos que eu tirei de uma vez só. eu sempre me surpreendo com o resultado!

guilherme machado, fidi x-pro, nova iorque, 2012. © guilherme machado

o que mais desperta a sua atenção no rio? e em nova iorque?

gm - no rio de janeiro o povo é incrível, a natureza é exuberante. depois que você mora fora parece que o amor só cresce. também tem o fato de eu ir pro rio e ver as mudanças que ocorrem enquanto eu estou longe. eu me sinto redescobrindo a cidade que morei por 27 anos. nova iorque é um lugar doido porque antes de  vir pra ca eu já conhecia vários lugares através do cinema. todo lugar que você olha parece uma cena de filme.  luz aqui também é uma das melhores do mundo, o sol bomba o ano todo. 

 

em 2016 você publicou um zine, certo? o que significa publicar para você? 

gm - o zine que publiquei em 2016 foi muito especial pra mim, principalmente por conta do momento que ele retrata. o zine se chama ‘10 dias no rio’. eu fui pro rio porque a minha avó faleceu e eu precisava passar um tempo com a minha família. por um acaso, coincidiu com a final da copa do mundo no rio e a cidade estava em festa. todas as fotos do zine foram tiradas nesses dez dias. engraçado que eu não planejei. foi uma decisão que tomei quando recebi os negativos e vi que faria sentido. 

guilherme machado, dois irmãos aceso, rio de janeiro, 2016. © guilherme machado

ao fotografar você pensa em pintar? ao pintar você pensa em fotografar? como um suporta o próximo? 

gm - eu já misturei os dois, mas pra mim são processos diferentes. as minhas pinturas são quase uma performance por causa da técnica que eu desenvolvi. eu não consigo fazer 2 quadros iguais. é como um improviso de um instrumento, eu já sei as escalas mas as notas vão surgindo enquanto eu pinto. fotografia principalmente hoje em dia que eu mudei meu foco de street pra moda tem muito planejamento. acho que eles se assemelham quando eu começo a improvisar na fotografia. quando eu fujo dos planos e vou inventando na hora.

guilherme machado, soho x-pro, nova iorque, 2012. © guilherme machado

 

agora, uma difícil. caso sobrassem apenas 4 poses na película, o que guilherme machado fotografaria? e por que?

gm - se fosse a última película do mundo eu fotografaria a minha família. por mais que eu tenha a fotografia como expressão artística, o fato dela imortalizar as pessoas queridas ainda é um aspecto muito importante pra mim. 

guilherme machado, sally, nova iorque, 2016. © guilherme machado

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

Publicações relacionadas

MORO NO RIO

em um vai-e-vem entre o brasil e os eua, guilherme machado discute sobre as fortunas da fotografia e as emoções que a permeiam seus ensaios.

ODE À IMPERFEIÇÃO

um flanêur, um gonzo. “the last-man standing after an all-night drinking marathon”. e eis sabi wabi.

ON THE ROAD

acompanhe carolina e isabela amorim em uma aventura na chapada dos veadeiros.

VIAGEM NO TEMPO E NO ESPAÇO DO IMAGINÁRIO

o eduardo magalhães pescou fotografias. e hoje as traz, frescas, à nossa rede. com vocês, o marujo eduardo e o seu diário de bordo.

FANTASIAR

ah, carnaval. este, que tornou-se objeto de pesquisa de antropólogos e sociólogos, que inflama o coração dos mais apaixonados.