vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

NOITE

com uma minolta hi-matic e rap no headphone, vitor casemiro apropria-se da noite. os postes e os neons guiam o seu caminho. bares, grades, santos, signos deste submundo, são o seu norte. ou o seu sul. não se sabe. sabe-se, no entanto, que entre clicks e doses, o fotógrafo segue ao cerne, ao centro. sabe-se, ainda, que encontrou na fotografia a forma de produzir os seus filmes, de crime, de suspense. e, assim, subverter os subjugados. nesta obra, estes são os astros. e os flashes, seus holofotes. 

como no cinema, nós, d'o álbum, acreditamos em cooperação. ajude a publicar 'noites desperdiçadas'. contribua pelo catarse e apoie a fotografia em filme.

luz, câmera e ação... ou melhor: flash, câmera a ação! com vocês, vitor casemiro e suas errâncias pelo escuro:

como começou a fotografar?

comecei na rua, praticando parkour. de 2008 a 2012 fotografei e produzi diversos vídeos de parkour. nesse meio tempo, comecei a estudar cinema de forma independente e em 2013 realizei um curta-metragem. em 2015, descobri a fotografia de rua e logo comecei a trabalhar nas minhas primeiras séries fotográficas. cinema é difícil, demanda muito tempo, pessoas e recursos. encontrei na fotografia uma forma de realizar pequenos filmes de maneira rápida, barata e com poucas pessoas.  

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2018. © vitor casemiro

por que a película? quais as que você prefere, e que câmera utilizou para a série?

a minha atração pela película começou quando fui projecionista de um cinema. lá, aprendi a cortar, colar e montar os filmes para exibir. na fotografia, minha experiência com filme é recente, mas bem intensa. em 2017 cliquei mais de 80 rolos de filme 35mm, tanto p&b quanto colorido. nesse curto período de tempo, pude perceber que a fotografia analógica tem outro peso. o filme fotográfico é um objeto e cada quadro tem seu valor. fotos fora de foco, riscadas, borradas ou queimadas são aceitas pelo seu caráter físico, e se essas fotos fossem digitais, seriam apagadas facilmente. não tenho um filme favorito ainda, tenho usado os mais baratos que consigo encontrar: konica centuria 200, kodak colorplus 200 e kodak proimage 100. no 'noites desperdiçadas' utilizei uma câmera dez anos mais velha que eu, a minolta hi-matic af2 de 1981. a câmera tem uma objetiva 38mm f/2.8, é compacta, automática e com um flash embutido poderoso.    

vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2018. © vitor casemiro

que dificuldades você encontra em campinas e em seu dia-a-dia para produzir? desde filmes, laboratórios, etc.

por incrível que pareça, encontro poucas dificuldades pra clicar com filme aqui em campinas. não tem muita variedade de filme, mas os que tem são esses bons e baratos. existe um minilab que revela por 10 reais, digitaliza por mais 10 reais e entrega em 24h. existe também uma turma que se reúne todo mês pra beber e revelar filme preto e branco. o evento se chama revelaço pb.

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

quando você começou a desperdiçar as suas noites? e mais, como este ambiente o ajudou a desenvolver seu processo fotográfico?

fotografei de abril até agosto de 2017. planejei esse ensaio pra ser curto e intenso. na época eu trabalhava de dia e só podia clicar de noite, então quase todas as noites depois do trabalho eu frequentava os mesmos bares do centro de campinas. durante a produção do ensaio eu comecei estudar fotolivros com o fotógrafo e professor felipe abreu, e rapidamente entendi o potencial dessas noites desperdiçadas como livro.

vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

conte-nos sobre sobre os desafios em desenvolver um fotolivro no brasil.

existe um boom do fotolivro que começou alguns anos atrás na europa e que, recentemente, chegou ao brasil. tem muita gente auto-publicando, desde pequenos zines à projetos maiores. acho que os principais desafios aparecem na hora de construir a narrativa, a galera fica bem mais preocupada em fazer um fotão do que em criar um caminho, contar uma história. um fotolivro, assim como um filme, precisa de planos abertos pra situar a história, precisa de detalhes pra realçar objetos importantes, personagens, locações… edição é muito importante e nem todo bom fotógrafo é bom editor, tem que ir atrás, estudar, entender as associações entre imagens.     

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

vitor, você consome e cria em cinema. e, pelo cinema, compreendemos a potência de uma imagem e de seus sequenciamentos. assim como nos longas-metragens underground e em seus criminosos, nos explique o processo que encontrou para editar e construir o cenário creepy que suas imagens criam.

logo que revelei os primeiros negativos, percebi que muitos elementos se repetiam. percebi também um ponto de vista em primeira pessoa, como se eu estivesse dentro da história. então, dividi o ensaio em 5 partes, em que cada parte representa uma noite diferente, e, ao longo das noites, a tensão aumenta. usei a arquitetura hostil desse espaço para situar a história: todas as noites começam com portões e cercas. a cada noite, passamos pelos bares e inferninhos, todos eles pontuados por santas, um dos elementos que se repetem. entre os personagens e objetos trabalhei com associações formais, criando um caminho de cores ao longo de todo o ensaio.

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

e mais, liste diretores que mudaram a sua visão e a sua vida e obras que, especificamente, o ajudaram a desenvolver ‘noites desperdiçadas’.

são vários os que mudaram minha vida, de jodorowsky aos irmãos coen. amo muito o 'enter the void', de gaspar noe. todos os filmes de larry clark e harmony korine sem dúvida. também acho que tem um pouco de 'the warriors' e alguns filmes do john carpenter em noites desperdiçadas. mas também me guiei muito por música, do clima pesado de gesaffelstein ao rap de shawlin no disco 'ruas vazias'.

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

e por último, mas não menos importante, quais os planos com a fotografia daqui para frente?

tô revelando aos pouco um projeto em andamento sobre a torcida da ponte preta, realizado inteiramente com filme pb fora da validade. também tô planejando um projeto de longo prazo sobre aparições de ovni's no brasil. quero continuar estudando fotolivros, e realizar mais projetos impressos.

‍vitor casemiro, noites desperdiçadas, campinas, 2017. © vitor casemiro

autor

Bruno Machado

prefere não queimar o próprio filme.

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